“A TI é transformadora, mas faltam referenciais para as meninas saírem do binômio casamento e casa”, explica Melissa Cozono, arquiteta de dados da Boa Vista

Meu nome é Melissa, tenho 39 anos, e trabalho há 25 anos com TI em uma história cheia de altos e baixos, mas principalmente com muitos aprendizados que tenho a honra de compartilhar aqui com vocês.

A família da minha mãe é de origem muito pobre. Dos seis irmãos, apenas meu tio conquistou um diploma superior de Engenharia Mecânica. Esse tio, aliás, foi minha principal referência e incentivo para ingressar na área de tecnologia. Ele via que meu irmão e eu tínhamos facilidade para mexer com computador, porque jogávamos muito videogame em casa.

Quando tínhamos uns 14 anos, minha mãe trabalhava como gerente de uma escola de informática famosa na época, a Data Control. O coordenador a incentivou colocar meu irmão e eu na tecnologia. Então, eu comecei a cursar Corel Draw, Photoshop, e trabalhei na Secretaria de Ensino da escola. Cheguei ao ponto até de dar aulas.

Comecei meus primeiros passos na programação aos 16 anos. Estudei também com meu irmão montagem de computador. Não tinha o intuito de ganhar dinheiro, era apenas para divertimento e aprendizado. Mas tivemos problemas financeiros em casa e eu comecei a trabalhar como suporte técnico para ajudar.

Com mais ou menos 20 anos, fui trabalhar no suporte técnico do Unibanco 30 horas. Trabalhei também em uma Central de Atendimento que não tinha quase mulheres. Minha primeira referência profissional feminina foi minha professora de lógica de programação em C na FASP, uma faculdade muito boa que, infelizmente, não existe mais. Ela era formada em Física, mestranda e trabalhava no Laboratório da USP. Foi com ela que eu realmente me tornei profissional de tecnologia.

Meu ex-marido também trabalhava na área e éramos parceiros, mas quando fui trabalhar na mesma consultoria que ele, percebi que era a sua sombra e não tinha um brilho próprio. Tinha a “síndrome da impostora” e isso me atrapalhou muito. O que sempre me ajudou foi a minha competência técnica. Nisso, eu era uma das melhores em todos os lugares por onde passava.

No início de 2009, recebi uma oportunidade para ser gerente da área de Qualidade de Dados em uma Telecom. Depois de uns anos, eu ocuparia o lugar de um gerente que já tinha um histórico muito forte de assédio moral. Nessa troca de cadeiras, fui demitida e ouvi a frase de que “eu era mulher, e lugar de mulher é na cozinha”. Abri reclamação no comitê de ética, mas não tive resposta, porque já não era mais funcionária.

Neste período, o CEO da Telecom que saiu de lá e me levou junto para fazermos integração sistêmica em uma outra empresa. Estava bom, mas eu trabalhava 16 horas por dia. Estava obesa, pré-diabética, deprimida. Meu marido me propôs parar. Foi quando viajei para os Estados Unidos acompanhando meu companheiro, mas voltei para o Brasil em 2015 já separada.

Tentei empreender, mas não deu certo. Reencontrei meu primeiro namorado e acabamos nos casando. Comecei a trabalhar no SPC Brasil como Administradora de Dados. Lá, conheci mulheres, colegas de trabalho, começamos a nos juntar e ter essa relação de referência feminina. Fiquei grávida nesta época, e após ter tido minha filha prematura, com várias complicações, comecei a ver a quão forte e capacitada eu era. A maternidade me mostrou uma faceta minha que eu não conhecia. 

Depois, fui chamada para trabalhar no Fleury. Fiquei grávida novamente e pensei que seria demitida. Mas fui muito bem recebida! Ter um ambiente acolhedor nas empresas para mulheres faz toda a diferença.

Atualmente sou arquiteta de dados na Boa Vista e estudo Ciências da Computação, curso este começado muitos anos atrás na FASP. Formo-me ano que vem em Tecnologias de Big Data e planejo fazer mestrado em Dados. Quero também poder ensinar e ajudar outras meninas a desenvolver a parte lógica, e principalmente aconselhar “não acreditem no que falam, somos mais do que isso”.

Percebam quantos “nãos” tomamos por ser mulher. A falta de referências, a inibição do seu brilho próprio, faz parte da vida das meninas principalmente nas famílias mais pobres. Elas não têm visão de que a mulher pode escolher não casar e ter filho cedo, que pode e deve ser algo mais, fazer faculdade, ter uma profissão.

Temos que mostrar ao mundo que precisamos sim de mulheres na TI, elas são boas em exatas, elas podem ser mães, podem o que elas quiserem. Nós somos diferentes, enxergamos o mundo plural, nossos trabalhos, nossas famílias, nossos filhos, nos impelem a ser melhores e colaborar para uma sociedade mais justa.

Para saber mais sobre Melissa Cozono, veja seu LinkedIn:

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