“Não são as desculpas que te movem adiante, mas as suas atitudes”, afirma Maryanne Fonseca, gerente sênior de partner success na Amazon Web Services

Meu sonho de menina era me tornar militar. Tecnologia era meu plano B. Desde muito nova, eu tinha familiaridade com eletrônica e jogos e sempre fui curiosa em relação aos computadores. Lembro-me que, aos 8 anos, meu sonho de consumo era um notebook que na época custava quase o preço de um carro popular.

Vim de uma família sem recursos financeiros, mas que sempre me incentivou. Como muitas meninas, comecei a trabalhar na adolescência, em “lan-houses”, depois como secretária em uma escola de música para ajudar em casa. Aos finais de semana ainda fazia trabalhos de design gráfico (aprendi a usar o Photoshop na internet, praticando bastante “na raça”).

Aos 20 anos, após desistir de perseguir a carreira militar, tentei identificar o que eu gostava de fazer e o que poderia ser uma escolha útil e estratégica. Comecei, então, a buscar uma bolsa de estudos para cursar Engenharia da Computação, pois, mesmo trabalhando, não poderia pagar uma faculdade. Consegui uma bolsa muito concorrida e me formei bacharel Universidade Santa Cecília em Santos, minha cidade. Eu fui a primeira da minha família a me graduar.

Um certo dia, a convite de uma amiga da faculdade, tive a oportunidade de fazer uma entrevista de estágio para repor a vaga de um garoto que havia saído para morar fora do país. Após vários testes, fui aprovada como estagiária na Microsoft, onde comecei minha carreira corporativa. Era uma loucura imaginar que, um dia, a menininha que foi fã de computadores e eletrônicos, iria trabalhar na empresa que criou o Windows e democratizou o uso de computadores nos lares das pessoas.

O começo foi assustador. Eu não tinha nenhuma experiência no meio corporativo, nem a mínima ideia de como e o que era isso. Minhas disciplinas na faculdade eram técnicas, mas eu abracei uma oportunidade na área de vendas via canais da Microsoft. Aprendi muito na vivência e na prática.

Outro sacrifício que tive que me submeter era a locomoção todos os dias entre a universidade em Santos e o estágio em São Paulo. Eram cerca de 5 horas ao dia na estrada, poucas horas de sono (3 ou 4 horas por noite), mas eu nunca permiti deixar o nível cair ou me consolar com desculpas para não fazer o melhor que eu podia.

Ter uma carreira em tecnologia mostra o impacto positivo do nosso trabalho. Hoje, a tecnologia permeia quase tudo, se não tudo. Um dos maiores prazeres é poder ouvir de um cliente ou parceiro que o nosso esforço fez com que a empresa dele crescesse e, assim, pudesse gerar mais empregos ou contribuir com a sociedade de alguma forma.

Mas, como toda carreira, atuar com tecnologia também tem seus desafios. A competitividade e ritmo frenético que, se você não priorizar, pode causar um desequilíbrio na sua vida pessoal que, por sua vez, vai impactar sua carreira…é o famoso efeito “bola de neve”.

Também existem outras questões, como a equidade de gênero nas empresas. Nós, mulheres, contornamos estes fatores buscando ser muito competentes a todo momento. O nível “tem” que ser sempre alto. Nunca usei o preconceito como desculpa, sempre olhei o lado positivo e não perdi o foco na carreira. Afinal, não são as desculpas que te moverão adiante, mas suas atitudes.

Para as meninas que queiram seguir carreira em tecnologia, eu aconselho: confiem no que acreditam, mantenham-se fiéis aos seus princípios e jamais se limitem com crenças como “exatas é difícil”, “não entendo nada de tecnologia” ou “isso é coisa de menino, eles se dão melhor com isso”.

Saibam que sempre terão que se sentir “famintas” por conhecimento. Mas os resultados serão gratificantes se você se mantiver fiel ao que realmente é e deseja para sua vida.

Eu tinha um professor de faculdade que brincava comigo: “Você ainda está aqui, não desistiu como suas colegas?” Eu sorria e devolvia: “O senhor vai me ver muito por aqui”. Além de ter sido a única mulher da minha turma inicial a me formar, o fiz com honra ao mérito, reconhecida como melhor aluna da turma pela universidade e pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) de São Paulo.

Me “aventurei” em escolher um estágio que mudaria minha vida, em uma empresa que, geralmente, era para jovens com condições melhores, mas o plano deu certo.

Hoje, tenho muito orgulho da minha carreira e mais ainda da minha origem. Trabalhei em 3 das maiores empresas de tecnologia do mundo. Se, no passado, eu me limitasse a pensar que seria difícil ou que este não era o meu lugar, certamente não teria chegado onde cheguei. Foram as minhas dificuldades e conquistas que me moldaram para estar aqui hoje contando a minha trajetória.

 

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