“Para mim, a palavra que define a carreira em tecnologia é entusiasmo, exalta Ruth Broglio, consultora autônoma de tecnologia

Desde pequena, ouvia meu pai contar todo orgulhoso a história de uma prima minha de nome Núbia, que infelizmente faleceu alguns anos depois, mas na época, era engenheira eletricista e trabalhava em projetos importantes nos EUA. Aquela história me fazia querer ser igual, e assim cresci pensando “um dia serei igual à Núbia”. Pensava em fazer engenharia, mesmo sem ter a menor ideia do que isto significava.

 

Aos 14 ou 15 anos, convivia com uma amiga (Joana), que resolveu fazer um curso de Basic(linguagem de programação para os leigos). Na época, não compreendia nada sobre o tema. Ela me contava sobre suas aulas de programação básica e aquilo parecia muito interessante.

 

Um dia, descobrimos em uma banca de revista, que havia publicações de programas Basic para jogos. Influenciada pelo curso, ela conseguiu que sua mãe comprasse um CP 200 (computador doméstico da época). Era basicamente um teclado, algo como um “all in one”, só que sem o monitor, que sem dúvida não possuía nem um milésimo da capacidade que temos hoje em nossos celulares.

 

Joana e eu ligávamos o computador em uma TV pequena, cujo monitor era preto e branco, digitávamos o programa sem entender muita coisa, depois esperávamos 11 minutos para o jogo compilar, carregar e rodar. Então, jogávamos por horas e desligávamos tudo. Em uma próxima vez que queríamos jogar, era necessário digitar tudo novamente, esperar, carregar, etc.

 

Quando finalmente terminei o terceiro científico em 1988 (hoje chamado de Ensino Médio), fui prestar vestibular para Engenharia Elétrica na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Eu havia preenchido meu caderno de rascunho com a primeira opção para Engenharia Elétrica. Na fila do banco para pagar a inscrição, eis que um rapaz começa a conversar comigo dos porquês da minha escolha. Ao final da conversa, ele havia me convencido de que o nome da área que eu realmente queria era “Ciência da Computação”.

 

Começou então minha obsessão por ingressar neste curso. Acabei passando no terceiro vestibular em 1990, em uma Universidade Comunitária, na cidade de Itajaí. Foram 4 anos e meio de muita luta, pois minha família vivia no chamado “abaixo da linha da pobreza”, e eu havia passado em uma Universidade paga.

 

Foram muitos subempregos, empregos, bicos, e algumas vezes mais de um trabalho simultâneo. Mas dentro destas várias atividades, no segundo semestre, conquistei uma vaga de secretária em uma “software house” (muito raro na época). Lá me tornei programadora. Atualmente, sou Bacharel em Ciência da Computação, com especialização latu sensu em Computação e Gestão Organizacional. Autônoma, presto consultoria em Tecnologia da Informação, e em projetos de Desenvolvimento de Software.

 

Para mim, a palavra que define a carreira em tecnologia é entusiasmo. A infinidade de possibilidades, os bons salários, o impacto na vida das pessoas e a constante evolução. Quem trabalha com tecnologia, se sente em constante evolução, pois nunca para de aprender. Sempre há o que descobrir. Sentimo-nos parte do seleto grupo que sabe “como as coisas são feitas” nos bastidores. Sempre estamos aprendendo sobre novas áreas, porque precisamos prover soluções para as mesmas. Saboreamos a sensação ímpar de impactar uma pessoa, um grupo, um segmento, com as soluções que nós criamos.

 

Quanto ao lado negativo da profissão, é necessário salientar que nos acostumamos a trabalhar demais. Geralmente, quem segue e fica na carreira, se apaixona por ela. Isto, muitas vezes, provoca dificuldade em equilibrar o tempo de dedicação.

 

Em relação à mulher em tecnologia, na minha época, acredito que tenha sido mais difícil do que é para as novas gerações. Levávamos muito mais tempo para ganhar as promoções; as portas nunca estavam abertas. Você precisava encontrar a porta certa, desvendar o segredo para abrir e provar que merecia passar por ela.

 

O lado bom, é que quando o sucesso chega, ele é sólido. Você sente uma satisfação muito grande ao estar rodeada de pessoas, em nossa área incluindo muitos homens, que te respeitam e admiram pelo seu conhecimento. Quando você assume algum cargo de liderança, você passa a impactar a vida de todos. E mulheres tendem a querer o bem da coletividade.

 

Para as meninas que buscam seguir carreira em tecnologia, aconselho entrar de cabeça, estudar, se apaixonar e ser curiosa. Não permita que ninguém diga que você não é capaz, ou que isto não é para você. Aprenda a filtrar o que te dizem, e enquanto isso estude e se apaixone cada vez mais. Quando você menos esperar, estará muito segura, feliz, com independência financeira, em uma área para a qual nunca faltarão oportunidades. Nós mulheres somos tão capazes quanto os homens, e ainda temos a vantagem de termos a nosso favor a sensibilidade feminina, que nos ajuda com uma das habilidades mais necessárias na nossa área e ainda muito escassa: a empatia.

 

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