“Você está me dizendo que por ser mulher, o meu salário é menor?”, conheça Jaqueline Rodrigues, que sentiu na pele e encarou de frente a desigualdade de gênero no mercado de TI

Sou Jaqueline Rodrigues, Engenheira Eletrônica, pós-graduada e Gestão de Negócios e Tecnologia, com mais de 20 anos de experiência atuando na área de tecnologia, Gerente Executiva de uma grande empresa multinacional da área financeira, esposa e mãe de duas meninas lindas.

Trilhei meu caminho com muita dedicação, e apesar das dificuldades hoje posso dizer que sou uma pessoa realizada, mas nem sempre foi assim. Lembro-me que quando criança tínhamos uma vida humilde e meus pais se esforçaram muito para construir um futuro diferente para seus 3 filhos. Meu pai sonhava em ser engenheiro e minha mãe médica, com essa motivação saíram do interior e vieram para São Paulo, onde se conheceram, mas as dificuldades impostas pela cidade grande, não permitiram que eles pudessem pagar por seus estudos.

Durante minha infância sempre tive muita aptidão com matemática, raciocínio lógico e meu desempenho mostrava-se acima da média para a escola pública em que eu estudava. Lembro-me quando meus pais me chamaram para conversar e me disseram que eu tinha aptidão para seguir uma carreira em tecnologia, e que seria a profissão do futuro…, só que devido às condições financeiras, eu deveria me esforçar ainda mais para passar no vestibular e ingressar em uma escola técnica pública, buscar rapidamente colocação no mercado de trabalho e assim ter condições de custear meus estudos sozinha.

Me lembro que em algumas ocasiões ao ver minhas amigas brincando na rua, perguntar para meu pai, por que tinha que me esforçar mais do que as outras meninas da minha idade, e ele sempre me dizia que no futuro eu perceberia a diferença. Esse pensamento sempre me ajudou a ter foco no meu objetivo. Todo o meu esforço e dedicação trouxeram resultados, e nosso plano deu certo. Entrei na escola técnica no curso de telecomunicações, e já no segundo ano do ensino médio consegui meu primeiro estágio na área. Como primeira experiência posso dizer que fiquei um pouco frustrada, pois era a única mulher da área e meu chefe não me valorizava como profissional. Apesar disso não desisti, tornei essa situação um desafio pessoal, o que me impulsionou a provar para mim mesma que seria capas de seguir com a minha carreira técnica.

No terceiro ano do colégio técnico eu participei de um programa de estágio e fui selecionada para ser efetivada. Me dediquei muito para conseguir essa oportunidade, fiz todos os treinamentos, passei em todas as provas, e fiquei muito feliz por finalmente poder trabalhar com a carteira assinada. Um colega meu também foi selecionado e eu observei que na carta de efetivação dele o salário era superior ao meu, mesmo com os nossos cargos idênticos. Num primeiro momento eu pensei que pudesse ser um erro e fui comunicar ao RH. Quando me informaram que era isso mesmo, um sentimento de indignação me invadiu e eu não compreendia como o fato de ser mulher me faria inferior a alguém.

Tomei uma das decisões que mais me orgulho e, na cerimônia de divulgação dos aprovados, eu tomei coragem, segui meu coração e disse que não aceitaria trabalhar para uma empresa que não me valorizava por ser mulher. Devolvi a carta e fui embora de cabeça erguida! Em poucos dias consegui uma outra vaga como analista em outra multinacional onde fui realmente valorizada pelo meu potencial, sem distinções de gênero, e pude vivenciar o prazer de trabalhar com tecnologia todos os dias; nesse momento tive a certeza que tinha tomado a decisão certa na escolha da minha carreira, entrei na faculdade de Engenharia e desde então minha paixão pela área de tecnologia só tem aumentado.

Passei por outros empregos ao longo da minha trajetória e tive algumas experiências desafiadoras em relação à desigualdade de gênero, mas elas só serviram para me fortalecer e ter mais claro o meu objetivo, sempre me mantive firme e não desisti. Para ser reconhecida sempre tive que fazer mais, mas gosto de pensar nos pontos positivos e focar nos resultados que isso trouxe a minha carreira. Lembro-me de um episódio onde ouvi de um dos meus chefes que eu havia sido contratada pois não encontraram nenhum homem tão competente e tão qualificado quanto eu. Estar preparada para ser protagonista e ter a oportunidade de superar desafios diários realmente torna a carreira em áreas técnicas fascinante.

Para manter a relevância nessa área que predominantemente masculina, precisamos nos focar muito na nossa formação técnica, intelectual e buscar nos aprimorar em outros idiomas, falar inglês é fundamental para quem quer progredir em uma carreira técnica. Faz toda a diferença ter clareza de todos os nossos objetivos, estudar bastante, adquirir conhecimento técnico, aumentar nosso portfólio de experiências e buscar autoconhecimento, fortalecendo assim nossa inteligência emocional.

Atuo há mais de 20 anos nessa área, hoje sou líder de uma equipe que conta com mais de 40 profissionais e mais uma vez sou a única mulher na gerência executiva de TI. Desde o começo de minha carreira procurei mapear de maneira clara e objetiva os caminhos que eu gostaria de trilhar e acho que devo meu sucesso a isso. Gostaria que cada vez mais pudéssemos contar com mulheres nesse mercado de tecnologia assim tenho cominho que precisamos hoje mostrar nossas histórias, para que em um futuro próximo possamos inspirar as meninas que hoje estão decidindo os caminhos que gostariam de seguir em suas vidas profissionais. Tenho certeza que com dedicação aos estudos, força de vontade e objetivos claros bem definidos, logo logo veremos a área técnica repleta de mulheres. Devemos sempre acreditar em nosso potencial, ninguém pode apagar o nosso brilho!