Sou movida a desafios. Eu não vou ser mais uma a desistir! Entrevista com Silvia Coelho.

Para Sílvia Coelho, mestre em engenharia elétrica e administradora do grupo @ElasProgramam, o caminho para as mulheres na área da tecnologia ainda está longe de terminar

Costumo dizer que eu vim antes da tecnologia. Na minha infância, o que tinha de mais avançado era a TV a cores, e o controle remoto era o irmão caçula. Ter telefone em casa era coisa de rico, os pobres mortais usavam o velho amigo orelhão. Tecnologia mesmo era no cinema, em filmes de ficção científica.

Eu estudei em escola pública durante toda a minha vida. Venho de uma família humilde e quando era jovem não sabia muito bem quais eram as minhas opções para o futuro. No meu tempo, as carreiras eram divididas em ciências exatas, biológicas e humanas, e como eu era uma excelente aluna de matemática, tive apoio para seguir nas exatas. Meu pai foi autodidata, aprendeu a profissão de eletricista e radio técnico em um curso por correspondência. Consertava televisões, aparelhos de som, toca-fitas de carros, e acho que a semente da curiosidade por saber como as coisas funcionam e não ter medo delas, foi plantada aí.

Na oitava série, meu professor de matemática enxergou meu potencial e um dia me pediu uma foto e meus documentos, para me matricular no curso preparatório para prestar a Escola Técnica Federal do Pará. Ele pagou a minha inscrição e confiou em mim, ele sabia que o resto era comigo. Fiz o curso técnico em Eletrotécnica e depois fiz Eletrônica no Senai. Prestei vestibular e me graduei em Engenharia Elétrica com ênfase em Eletrônica pela Universidade Federal do Pará. Hoje, tenho mestrado em Engenharia Elétrica pela Unicamp – Universidade Estadual de Campinas, na área de Comunicações Móveis e Sistemas Celulares.

Então, quando a tecnologia chegou, eu já estava preparada para ela. Quando fiz meu mestrado, a área de sistemas celulares ainda estava nos primeiros passos do que conhecemos hoje. Minha vivência deixou tudo muito natural e familiar para mim. Nenhum avanço tecnológico me assusta. O que me deixa aterrorizada é o fato de a maioria das mulheres não seguirem carreiras em TI. Mais do que uma apaixonada por tecnologia, meu interesse maior é incentivar mulheres a entrarem para a área.

Como é uma área em constante evolução, podemos nos reinventar e recomeçar sempre, não importa a idade. Portanto, a longevidade na carreira é, na minha opinião, o que há de vantajoso na área. Há 9 anos, eu parei de trabalhar para me dedicar à maternidade e hoje, com a decisão de me recolocar no mercado, eu vejo a enorme oportunidade de aproveitar meu conhecimento e aprender ainda mais. Não quero voltar a trabalhar por questões financeiras, mas pelo desafio. Eu não vou ser mais uma a desistir!

A carreira em TI é mágica, ilimitada, divertida e apaixonante. É sempre um desafio porque é um espaço predominantemente masculino. Precisamos vencer o preconceito de que não é carreira para mulher, nos blindar de comentários inadequados, de questionamentos da nossa capacidade e provar que somos competentes o tempo todo. Com o tempo, a mulher adquire experiência e aprimora suas habilidades naturais de liderança, resiliência e comprometimento, mostrando todo o seu potencial. É uma carreira desafiadora, sim, mas mulheres são merecedoras de ocupar esse nicho tão importante da sociedade.

Com o @ElasProgramam eu quero conectar as mulheres com esse mundo tão maravilhoso da TI. Eu quero ensiná-las que tecnologia é coisa de menina, sim, e que somos tão capazes quanto os homens de seguirmos carreira nessa área. Existem muitas oportunidades, com salários atraentes e a possibilidade de sermos muito bem-sucedidas. Precisamos principalmente de tempo e dedicação, porque essa é uma área que avança exponencialmente, o que nos traz a vantagem do aprendizado e evolução, mas vem com muita pressão externa e interna para se manter sempre atualizada.

Minha mãe sempre me dizia que eu ia longe, mas não sabia o quanto. E eu só cheguei até aqui porque abracei as oportunidades que apareceram e porque tive mentores que me ajudaram ao longo do caminho. Hoje, sou realizada e sei que ainda tenho muito pela frente como uma mulher na tecnologia. Sigo agora com uma certeza: quero levar comigo todas as meninas e mulheres que eu puder!